Category Archives: Quimioterapia

Hoje não há quimio

Faz hoje 3 semanas que fiz o 8º ciclo de quimioterapia. Nos últimos 6 meses isto queria dizer que hoje estava no IPO a fazer mais um ciclo.

Ainda não sei se o suspiro de alívio é definitivo, mas enquanto dura, sabe bem.

8º e último (espero eu) ciclo de quimioterapia

Acabou. Ou pelo menos toda a gente espera que tenha acabado. É possível que o pesadelo tenha acabado assim tão depressa e que a minha vida possa voltar ao normal?

Na última consulta com a Dra. Joana Parreira a doutora informou-nos de que a partir de dia 15 de Janeiro já não estaria a trabalhar no IPO, mas que para mim não devia ser problema – ela está crente de que só terei de ir mostrar os exames e receber alta. Assim, fez já o pedido de transferência do meu processo (aquele de papel, sim, que tem de ser fotocopiado e depois enviado por fax e correio) para o IPO do Porto, para que me seja mais fácil fazer as consultas de seguimento.

Numa consulta um bocadinho mais longa do que o normal a Dra. voltou a afirmar que estava crente de que eu não precisaria de mais tratamentos, que os pacientes que mostram uma remissão tão grande em apenas 4 ciclos geralmente ao final de 8 estão curados, que eu continuo com óptimo aspecto e, por isso, não há razão para suspeitar que alguma coisa não tenha acontecido de acordo com os planos.

Antes de se despedir de mim, no entanto, a doutora explicou-me o que poderia acontecer na pequena probabilidade de eu não estar curada: radioterapia, auto-transplante de medula ou, em último caso, mais quimioterapia. Mas em princípio não preciso de me preocupar nem de pensar em nada disso.

Talvez tenha sido da excitação do Natal, ou por saber que era o último e tinha acabado, mas ao segundo dia de recuperação já não tinha enjoos, apenas o mal estar que é constante. Saí de casa todos os dias, jantámos fora e fomos às compras: afinal já estou curada.

Agora é só esperar. “Só”, como se não fosse horrível esperar na incerteza, sabendo que, por mais pequena que seja, há uma chance de que o pesadelo não tenha terminado.

Faço o próximo TAC de novo nos SAMS, onde tenho acesso quase imediato aos resultados, no dia 14 de Janeiro, no entanto o TAC não garante nada – o tumor pode ainda cá estar e eu estar curada na mesma. Mas pode cá estar o tumor e continuar a ser maligno. Isso só o PET, no final de Janeiro, o dirá.

Entretanto eu volto com parte da minha vida ao normal: volto ao Porto, recomeço a fazer exercício (devagarinho), e a ter as preocupações que tinha antes das minhas prioridades terem dado uma volta de 180º. Em Fevereiro terei certezas, até lá só posso mesmo esperar.

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A chegar ao fim

É verdade, já só me falta um ciclo! Felizmente o tempo passou bem mais depressa do que pensei quando a médica me disse, inicialmente, que seriam 8 meses de tratamento. Dia 16 (próxima terça-feira) faço o que, espero, seja o último tratamento de quimioterapia.

Felizmente nos últimos tratamentos não houve muitas alterações nem surpresas. As pulseiras anti-enjoo continuam a funcionar na perfeição, de tal forma que no dia seguinte ao último ciclo consegui estar a acordada o dia todo, preparar o bolo de aniversário da mãe e ficar acordada durante todo o jantar! O meu cabelo continua a crescer, embora não me pareça que seja o final – está fino como o dos bebés.

As consultas de psicologia do IPO são uma piada – consultas de 30 minutos uma vez por mês. Como é que é suposto eu ter apoio suficiente em 30 minutos por mês para algo tão complicado e life changing como cancro? Decidimos, então, procurar apoio no privado e, graças à recomendação da minha irmã Sara, acertei à primeira com a Dra. Tenho feito consultas semanais e as diferenças, pelo menos para mim, são notórias – menos um peso (ou parte dele) nos meus ombros. Ainda tenho uma consulta de psicologia no IPO na próxima semana, mas mais para informar que já não vou precisar de mais consultas e para, se a Dra. quiser, entrar em contacto com a minha actual psicóloga.

Tenho de, oficialmente, recomendar o livro A culpa é das estrelas do John Green a todos os que estejam interessados em compreender, um bocadinho, o que é estar deste lado – lidar, de repente, e tão cedo, com a nossa mortalidade e todos estes tratamentos. Embora o John Green não tenha passado por esta situação, trabalhou durante algum tempo com crianças com doenças mortais e baseou o livro no diário de uma rapariga real cuja história não terminou de forma feliz; para além disso a abordagem é muito real – afinal, e a maior parte das pessoas é culpada disso, as pessoas não passam a ser anjos e perfeitas só porque têm cancro. Eu sou a mesma pessoa, ou quase, que era antes – continuo a ter os meus defeitos e as minhas qualidades, não sou, de repente, melhor pessoa por ter passado por isto. E sim, há cancer perks e eu também me aproveito deles por vezes.

Voltando à parte médica disto: na última consulta, a Dra. Joana Parreira marcou o meu PET para o final de Janeiro para ter a certeza de que não há falsos positivos por ter vestígios de quimioterapia ainda no corpo, porque ela acha que não serão necessários mais tratamentos de qualquer tipo. Para um médico dar esperanças é porque a probabilidade é mesmo muito boa, certo?

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5º ciclo de quimioterapia

E já vou a mais de metade do tratamento!

Depois de muitas confusões com os horários dos médicos do IPO e com o facto de que o meu processo, em papel, precisa de 3 horas para ir de um edifício para outro – deve precisar de crescer pernas primeiro – finalmente consegui ir à consulta com a psicóloga. A psicóloga foi bastante mais normal e humana do que eu estava à espera, baseada numa experiência que tive com 12 anos, e, embora tivesse interrompido a consulta para atender um telefonema interno, correu bastante bem. Deveria lá voltar em breve, mas ao olhar para a agenda a psicóloga percebeu que “em breve” queria dizer mais de um mês depois. Não é como se eu tivesse a fazer alguma coisa que precisasse de acompanhamento ou estivesse doente ou assim…

Levei depois o TAC da 4a sessão à Dra. Joana, para avaliarmos o progresso. Embora também esta médica tivesse de atender um telefonema a meio da consulta, explicou-me que o tumor tinha reduzido para menos de 1/5 do tamanho, ou seja, tinha 403 cm3 antes da quimioterapia e agora já só tinha 90 cm3! No entanto ainda não está pequeno suficiente para os médicos tradicionais me considerarem curada e terei de continuar a quimioterapia até Dezembro, como inicialmente previsto.
Ainda tentei fazer outro TAC depois da 6a sessão, para confirmar que realmente teria de fazer as 8, mas os médicos tradicionais são assim e as coisas são feitas, muitas vezes, mais pelo livro do que pelo resultado – normalmente são precisas 8 sessões, vou ter de as fazer.
Antes de terminar a consulta também perguntei sobre as dores de garganta que tenho tido, e sobre estar preocupada com ficar doente, especialmente depois de ter ficado já uma semana internada. Mas as análises estavam bem e a minha garganta só parecia um bocadinho mais vermelha do que o normal, portanto não era para me preocupar.
“Tem tido febre?” perguntou-me. Não, acho que não, mas não medi por não me sentir febril. A minha mãe pediu para eu me aproximar e encostou-me os lábios à testa. “Não, não tem febre” disse à médica. E a médica nem quis confirmar; que método tão científico! “Vá controlando, se tiver febre, vem ao hospital” disse a médica, com um ar descansado. Pois, mas se eu chegar a ter febre então tenho de ficar internada! Porque não me dão qualquer coisa antes? Perguntámos especificamente se eu podia, ao menos, chupar pastilhas para aliviar e desinfectar e assim. “Eu não tomo, não acho que façam muito, mas se quiser tomar…” Também não está a fazer quimioterapia, pois não?
A minha mãe tem estado preocupada com as aulas de Zumba e Bodyjam que eu tenho aproveitado para fazer quando me sinto melhor e perguntou à Dra. se eu as podia fazer. “A Sofia não vai conseguir fazer aulas dessas!” Eu e a minha mãe olhámos uma para a outra. “Não, não está a perceber, ela já as fez” explicou a minha mãe. A Dra. Joana ficou definitivamente surpreendida, “A aula toda?”. Sim, todos os 60 minutos de dança. Sim, eu também estava surpreendida. Estou mais lenta e canso-me mais rapidamente, mas aguentei as aulas todas! E se mais aulas houvessem, a mais aulas eu iria! Sabe tão bem dançar e divertir-me com amigos e não me lembrar que estou doente…
Bem, se eu aguento, então posso fazer as aulas todas que eu quiser!

Tive novamente direito a uma cama para fazer o tratamento, que continua a passar rapidamente comigo a dormir o tempo todo.

Comprámos na farmácia, por indicações de amigas da minha mãe, umas pulseiras anti-enjoo. São dois elásticos, um para cada pulso, com um botão que faz pressão num ponto que alivia os enjoos. São super fáceis de colocar, a caixa tem instruções, e pode-se tirar e meter quantas vezes quisermos, molhar e lavar e tudo. As que comprámos chamam-se Sea Band, não sei se há outras marcas, e existem em tamanho de adulto e criança.
Comecei também a tomar cápsulas de carvão vegetal, cerca de 4 por dia, para que absorvessem todos os químicos no meu sistema.
Entre estes dois novos produtos, a minha recuperação foi muito melhor! Não tive enjoos, nem a sensação de espuma no estômago que tenho tido, nem nada que se parecesse! No primeiro dia estava cansadíssima, claro, de tal forma que nem tinha forças para falar, mas era de esperar. Mas no 3o dia já estava a ir às compras com a minha mãe e avó e a jantar fora!

Faltam 3 sessões e parece que já descobri o truque para uma recuperação rápida e quase indolor!

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4º ciclo de quimioterapia

Gostava de ter escrito, novamente, depois do tratamento, mas durante as últimas semanas bastava-me pensar na quimioterapia e o meu estômago dava uma volta. É psicológico, claro, tal como o frango cozido com arroz integral que comi depois do primeiro ciclo e que agora me dá vómitos só de pensar…

Chegámos cedíssimo ao IPO, desta vez para eu fazer análises no próprio dia. As análises são rápidas e fáceis, é só tirar um bocadinho de sangue (3 tubinhos) e fazer recolha de urina para outros dois e já está. Mas, para variar, a consulta com a Dra. Joana Parreira atrasou. Atrasou tanto que a mãe já tinha ido buscar o livro de reclamações quando finalmente me chamaram.

A Dra. é sempre muito despachada, nem me deixa sentar na cadeira – logo para a maca! Apalpa aqui, ausculta ali, verifica a garganta. Está tudo bem. Há queixas? Não? Óptimo, vamos lá então.
Perguntei do TAC, que ainda não tinha sido marcado pelo IPO, como era de esperar, e pedi uma requisição para fazer fora.
“Tínhamos falado em 8 ciclos não era? Não devemos precisar de todos!” Disse, ao passar a requisição. Pelos vistos também ela estava surpreendida com os resultados do primeiro raio-x após a quimioterapia.
Mostrei também os resultados do ecodoppler que tinha feito – está tudo de volta ao normal. Podia deixar de tomar injeções e passar aos comprimidos, mas isso implicava tomar mais uns comprimidos todos os dias durante mais uns quantos meses. Em vez disso vou passar para metade da dose das injeções de enoxaparina e, depois do resultado do TAC, em princípio deixo mesmo de tomar o que quer que seja! Pelo menos parte do tratamento resultou!

Voltei a ter direito a um quarto para fazer a quimioterapia, e ainda bem. Assim que o tratamento começa eu adormeço e só acordo mesmo no fim, quando começa a haver mais movimento no quarto.

A recuperação da quimio está a tornar-se mais longa e difícil, com mais enjoos e náuseas e quebras de tensão. Mas tenho de ficar positiva e saber que já vou a mais de metade do tratamento – estou próxima do fim da batalha.

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3º ciclo de quimioterapia

Deveria ter escrito mais sobre o terceiro ciclo de quimioterapia, e mais cedo, mas ainda vou a tempo de o registar antes de um novo ciclo.

A Dr. Joana Parreira estava de férias na altura da minha consulta/quimioterapia, pelo que fui atendida pela Dr. Francesca. Levei-lhe o raio-x que me tinham feito nas urgências do Hospital de Alfena quando fui internada, no mês passado, para que guardassem o registo e para que pudéssemos avaliar a evolução do tumor. Também tinha feito, logo depois do 2º tratamento de quimioterapia, um raio-x no IPO, que queríamos comparar. A Dr. mostrou-nos os dois e meteu-os lado a lado com o primeiro raio-x que me tinham feito, mesmo antes de eu começar a tomar a cortisona, e fez umas medições para que tivéssemos uma ideia da proporção do tumor. Se, inicialmente, o tumor tinha quase 13 cm de largura, no final do primeiro ciclo já só tinha 10 cm.
Claro que isto ainda parece enorme, mas só tinha feito um ciclo de quimioterapia e ainda não tinha feito o 2º tratamento com o Dr. Fritz, para além de que a primeira batalha é fazer com que o tumor tenha menos de 5 cm.

Os 5 cm pode parecer muito aleatório, mas as duas Dras. partilham da mesma opinião – se o tumor tiver menos de 5 cm no TAC, fazemos um PETC para verificar se o tumor ainda está activo (e por isso continua a tentar multiplicar-se) ou se passou a ser benigno, ou seja, podemos deixa-lo estar, mantendo vigilância, mas não tenho de fazer nenhum outro tipo de tratamento. Com menos de 5 cm mas activo teremos de pensar noutros tratamentos, como a radioterapia, ou continuar com a quimioterapia, mas isso é uma outra batalha, para a qual só iremos planear se o momento chegar.

O 3º ciclo de quimioterapia atrasou-se mais de uma hora e, quando finalmente me chamaram, pediram que me dirigisse ao hospital de dia 2 e não ao 1, como no 2º ciclo. Afinal os tratamentos são mesmo como nos filmes – uma sala (vá, um barracão de alumínio transformado em sala de tratamento) nas traseiras do edifício com vários cadeirões reclinados à volta, todos eles ocupados excepto o meu, e duas enfermeiras que falavam alto entre elas. Eu entrei com a minha taça de sopa por comer e sentei-me no meu cadeirão em silêncio. Não me perguntaram nada e eu nada disse. Tirei da mala tudo o que podia precisar, se não ia dormir – um livro, o telemovel e os phones. Comi a sopa e esperei pela enfermeira. Inicialmente pensei não precisar de uma manta, afinal até estava bastante calor na rua, mas rapidamente percebi que o ar condicionado estava mesmo por cima de mim e estava gelado. Pedi uma manta pouco depois de começar o tratamento, mas acabei por ter de pedir uma segunda e, com as duas mãos ocupadas, uma com o catéter, a outra com o medidor de pulsação e de tensão arterial, tentei cobrir-me o melhor que pude. O sono foi rápido, novamente, mas o cadeirão é muito desconfortável, em comparação com a cama dos dois tratamentos anteriores, e eu cabeceei durante as 4 horas do tratamento, ora para a esquerda, ora para a direita.

A recuperação do tratamento foi, também, muito pior do que as anteriores – mais enjoos e mau estar, mais cansaço e indisposição… mas nada que eu não consiga ultrapassar! Só passado 7 dias é que comecei a sentir-me mais normal, bastante mais tempo do que no 1º e 2º ciclos, mas descobri que a água com gás é a minha melhor amiga nestas alturas e estar a descansar ajuda muito.

A segunda semana do ciclo traz os dias de menor imunidade, ou seja, nada de espaços públicos. Felizmente a minha irmã Sara precisava de ajuda a montar os móveis da sua casa nova e, embora eu me sentisse cansada e não pudesse ajudar muito, foi óptimo poder sair e sentir-me algo útil por algumas horas.

Ter a vida em pausa está a começar a afectar-me mais do que alguma vez imaginei. Não tenho pressa para fazer nada e tenho vontade de fazer muito pouco – não tenho trabalho, mas também não posso começar agora a procurar, não há pressa para fazer a tese porque não a vou apresentar antes de Abril e não posso trabalhar com os meus orientadores enquanto estiver por Lisboa, não posso publicitar o Chá das Cinco nem trabalhar em novas receitas, porque não tenho os meus materiais e nem devo comer nada com açúcar (e é impossível fazer e não comer nunca), para além de que, durante um largo espaço de tempo, a ideia de cozinhar enjoa-me.

Por isso esta semana passada vim ao Porto. Foi uma lufada de ar fresco. Durante uma semana não me senti doente, não senti que o meu dia era contado em comprimidos e injecções, não estava fechada em casa à espera que o tempo passasse. Os meus amigos foram cinco estrelas e vieram até minha casa nos primeiros dias, para que eu não tivesse de estar em locais públicos, e, depois, começaram a levar-me a fazer as coisas que sabem que eu gosto – tomar chá, passear junto ao mar, passar horas na conversa… Não podia ter pedido uma semana melhor, mesmo com toda a gente a trabalhar!

Agora estou pronta para o 4º ciclo de quimioterapia, na terça-feira, com um novo animo e muita força. Afinal, já vou a meio da batalha.

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2º ciclo de quimioterapia

Ontem voltámos ao IPO para mais uma consulta com a Dra. Joana e para o segundo ciclo de quimioterapia.

A consulta estava marcada para as 9h40 mas, para variar, fui atendida duas horas depois. As análises que tinha feito na segunda-feira estavam óptimas, a Dra. fez apalpação e não encontrou nenhum problema com os gânglios, e portanto estava tudo OK para passar à quimioterapia.

Aproveitei, então, para fazer algumas perguntas e esclarecer algumas confusões e informações contraditórias.
• A Dra. Joana não confirma que o açúcar faça pior às células cancerígenas – eu continuo a achar que é boa ideia evitar, mas não preciso de fugir de tudo o que tem açúcar como o diabo da cruz;
• Posso ir à praia desde que o faça como um bebé: sol só entre as 8h e as 10h ou as 18h e as 20h, sempre com factor 50. Até posso tomar banho no mar, embora não esteja a ver isso a acontecer…
• A altura em que estou mais susceptível a doenças não é logo depois da quimio, mas sim entre o 8o e o 13o dia, ou seja, nessas alturas é que convém não ir a sítios públicos, onde é mais fácil contrair doenças;
• Posso fazer todo o exercício físico que me faça sentir bem, ou seja, não estou proibida de fazer nada desde que eu aguente e me sinta bem durante e depois. É normal que não tenha tanta força/cardio como tinha antes do tratamento, mas isso não implica que eu fique sentada o dia todo;

Para além destas novas informações a Dra. prescreveu-me já as injecções do factor de crescimento, para eu tomar ao 8o dia depois da quimio, para evitar a descida dos glóbulos brancos. Como estas injecções, que me foram dadas durante o internamento no Porto, me deram imensas dores de ossos (estimulam a medula, logo os ossos doem), posso tomar analgésicos durante os 3 dias de injecções e, se as dores forem mesmo muitas, devo só fazer 2 dias. Em princípio isto evitará outra visita ao internamento.

Falei também com a Dra. sobre todos os suplementos que estou a tomar, ao que a Dra. confessou nem conhecer alguns deles e estar apenas preocupada com os efeitos secundários ou efeitos maximizados pelos medicamentos incluídos na quimioterapia. Eu voltei a tomar os suplementos hoje e vamos ver como as coisas andam, o mais fácil é ir avaliando com a passagem do tempo.

Eu e a Dra. partilhamos alguma curiosidade em ir vendo a evolução regressão do tumor, pelo que fiz novamente um raio-x depois da consulta e tenho outro marcado para daqui a 3 semanas, antes da próxima sessão de quimioterapia.

Mal tinha acabado a consulta quando me telefonaram a dizer que podia fazer a quimioterapia uma hora antes – óptimo. Fui entrando enquanto a mãe e o Ruca tratavam de marcar consultas e levantar prescrições médicas. Eu pensava que a quimio era feira em cadeiras numa sala “pública”, mas afinal é em pequenos quartinhos com uma cama – e ainda bem! Antes do Ruca ter tempo de me encontrar já me tinham dado o antihistaminico intravenoso, e eu estava a adormecer rapidamente! O pobre do Ruca ficou quase 4 horas a olhar para mim a dormir, sentado numa cadeira desconfortável! Se isto for sempre assim mais vale deixarem-me sozinha, ao menos não me sinto mal por estar a dar uma grande seca a quem lá estiver.

Sempre ouvi dizer que fazer a quimio era uma coisa horrível – não me interpretem mal, os efeitos secundários não são nada fáceis e eu estou a ter muita sorte por enquanto – mas a sessão quimioterapia em si não é nada de mais! Cheguei ao meu quartinho, ajeitaram-me a cama, deram-me uma manta e puseram-me um cateter. Depois deixaram-me com um monitor de tensão e pulsação que ia medindo de 30 em 30 minutos e começaram a dar-me o ben-u-ron intravenoso, ou seja, no cateter. Depois o antihistaminico. Vem o sono, começo a adormecer e atropelar as palavras, mas estou deitadinha na cama, não tem problema nenhum. Eventualmente a enfermeira troca os sacos da medicação e começo a fazer a quimioterapia sem sequer dar por isso. No meio disto, por ser hora de almoço, ainda me trouxeram uma sopa e uma maçã assada. No fim a enfermeira veio acordar-me, tirar o cateter e já está. Saio com sono e a querer dormir 24 horas, mas é só isso.
Eu sei que tudo isto depende de pessoa para pessoa, mas pelo que vi nos quartos ao lado, toda a gente dorme e ninguém parecia agitado sequer.

Ontem às 17h já estava na cama e, excepto uma meia hora para beber água e tomar medicamentos, dormi até as 10h da manhã de hoje e ainda fiz outra sesta antes de almoçar.

Para além do sono estou ligeiramente enjoada, alguns cheiros fazem-me confusão, mas é só isso. Eu estou a vencer esta batalha.

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Vendi o meu cabelo

Saímos da primeira consulta com a Dra. Joana Parreira com muitas dúvidas mas duas certezas: eu vou começar a fazer quimioterapia e o meu cabelo vai cair.

Por isso, começámos logo a discutir as minhas opções.

E se eu aproveitasse o cabelo que ainda tenho, não que seja muito nem em muito bom estado, para fazer uma peruca? Afinal, fazem-se perucas de cabelo humano, não é? Liguei logo para o cabeleireiro do IPO para saber se isso seria sequer uma opção. Não devo ter sido a primeira pessoa a pensar nisso porque quem me atendeu explicou logo que, infelizmente, não, era necessário cabelo de mais do que uma pessoa para se fazer uma peruca, mas que o poderia doar. Ora, doar para outra pessoa não era bem o que eu tinha em mente.

Durante o almoço a minha irmã Sara comentou que, uma vez, lhe tinham dito que o cabelo dela valia mil euros se ela o vendesse para extensões. Mil euros? Ok, o meu cabelo não era tão comprido quanto o dela e estava em muito pior estado, graças a todas as cores de que eu já o tinha pintado e ao meu défice de vitamina B12; mas deveria valer alguma coisa. E se eu o vendesse? O século XXI tem coisas magníficas, entre elas o google: “vender cabelo lisboa” procurei no momento. Sim, estou consciente que esta deve ser daquelas pesquisas que, no final do ano, entram na lista das mais estranhas/incríveis. Mas havia resultados, e não eram assim tão poucos. O primeiro era uma notícia do jornal i. Incrível, afinal havia sítios onde se comprava e vendia cabelo em Lisboa. Era isso que eu ia fazer – aproveitar que o cabelo ainda estava saudável para o vender e, com esse dinheiro, poder comprar uma peruca.

A caminho do carro, depois do almoço, ainda passámos num cabeleireiro que dizia fazer extensões de cabelo humano. De lá encaminharam-nos, um bocadinho descrentes, para a Great Lenghts na Av. Estados Unidos da América, de onde eles compravam as extensões. Como era mais perto, fomos bater a essa porta primeiro. A rapariga que nos atendeu explicou que não, não compravam cabelo, porque tinha de ser logo tratado e que eles importavam as cabeleiras e as extensões, mas, já que estava ali, podia experimentar uma cabeleira. A cabeleira que eu experimentei era espetacular, não dava mesmo para perceber que não era o meu cabelo e, segundo a vendedora, eu até podia dormir com ela posta e lava-la no banho como se fosse o meu cabelo… mas custava 990€. Obrigada, mas ainda temos de pensar.

Não tendo nada a perder decidimos experimentar o Centro Comercial Babilónia, na Amadora, tal como dizia no artigo do jornal i.

O Centro Comercial Babilónia, obviamente, não tem estacionamento. Por isso, enquanto a mãe dava voltas a tentar estacionar, eu e a minha irmã Susana fomos andando. Assim que entrámos sentimo-nos deslocadas, nós não pertencíamos ali – nós sabíamo-lo e o resto das pessoas no Centro Comercial, também.
“E agora?” perguntei à Susana, ainda à porta. “Como sabemos onde é o cabeleireiro?”
Felizmente havia algumas placas informativas à porta. Cabeleireiro loja 3, Cabeleireiro loja 11, Cabeleireiro loja 25… Com tantos cabeleireiros o melhor era entrar e perguntar.

Se nos pareciam muitos cabeleireiros pelas placas à porta, lá dentro percebemos que isso não era nada: porta sim, porta sim, havia um cabeleireiro. Na realidade só há 3 tipos de lojas no Centro Comercial Babilónia – lojas de telemóveis (daqueles com desconto mas que só têm instruções em espanhol e a ficha é americana ou semelhante), cabeleireiros e lojas de venda de cabelo. É verdade, existem lojas que só vendem cabelo. E os cabeleireiros do Centro Comercial Babilónia, na sua maioria, também vende cabelos. São vitrines e vitrines carregadas de rabos-de-cavalo de todas as cores, comprimentos e estilos. Só visto.

“Por onde começamos?”
O melhor era perguntar.

“Boa tarde, estávamos à procura de um sítio onde compram cabelo…” perguntávamos.
“Ah, não… não é aqui. Nós não compramos cabelo.” respondiam-nos logo os funcionários, com um sorriso comprometido.
“Boa tarde, queria vender o meu cabelo…” perguntávamos no cabeleireiro seguinte.
“Ah, não… aqui não compramos cabelo.” respondiam outros funcionários, novamente com um ar comprometido.
Tantas vezes isto se repetiu que, às tantas, a Susana diz “Se calhar isto é como comprar droga. Se quiseres comprar droga também não vais dizer que queres comprar droga, não é? Deve ter outro nome qualquer!”
“E como é que eu sei que nome é esse?”
Como não havia outra maneira de descobrir continuámos a nossa demanda até nos depararmos com um cabeleireiro onde um dos homens a ser atendido me respondeu (os cabeleireiros para africanos são quase unisexo, toda a gente faz tranças e as mulheres, na sua maioria, depois cose cabelo de caucasiana ou indiana ou assim, a essas tranças).
“Mas porque é que queres vender o teu cabelo? É tão bonito.”
Respirei fundo. “Eu tenho cancro. Ele vai cair. Queria vende-lo antes disso, se hei de o deitar fora…”
“Ah, eu percebo.” Virou-se para nós na cadeira. “A minha tia também teve.”
“Pois…”
“Olha, vais lá a baixo e perguntas pelo Beto. O Beto vai comprar o teu cabelo.”
O Beto? O Beto vai comprar o meu cabelo? A sério? E como raio era suposto eu encontrar o Beto?
Mas nem eu nem a Susana quisemos fazer mais questões. Agradecemos e saímos.
Antes de encontrarmos as escadas eu decidi arriscar mais uma vez num cabeleireiro enfeitado com rabos-de-cavalo.
Repeti a história do cancro, o cabelo cair, preferir vende-lo.
“Lá em baixo, ao lado da loja de roupa 69, perto dos Kebabs… Falas com a Yazira. Era vai comprar o teu cabelo.”
“Disseram-me para procurar o Beto.”
“Sim, é isso. Fala com eles.”
O Beto. A Yazira. A loja 69. Os Kebabs. Okay.

Eu e a Susana estávamos tão pasmadas com tudo aquilo que nos limitámos a obedecer. Ou a tentar obedecer, porque não encontrámos nem os Kebabs nem a loja 69. Mas eu acho que encontrámos a Yazira e o Beto.

“Posso ajudar” perguntou uma rapariga africana a quem, para sempre, hei de chamar Yazira ou coisa parecida. Estava encostada à vitrine de, mais um, cabeleireiro decorado com rabos-de-cavalo.
“Erg… Estamos à procura de um sítio para vender cabelo…” comecei a explicar.
“Que cabelo é que queres vender?”
“O meu.”
A Yazira mexeu-me no cabelo imediatamente, deixando-me logo intimidada.
“Eu compro o teu cabelo” declarou, como se estivesse a afirmar que era terça-feira. “Quanto queres pelo teu cabelo?”
Eu sei lá quanto é que eu quero pelo meu cabelo! Eu nunca vendi cabelo.
“Quanto é que tu dás?” perguntou a Susana, que é muito mais despachada e dada a negócios.
A Yazira voltou a verificar o produto que ia comprar (leia-se, o meu cabelo, ainda agarrado à minha cabeça) “Pelo teu cabelo… 30€.”
Trinta euros? Mas o cabelo da Sara valia mil!
Mas já tínhamos perguntado em tanto lado, já estávamos mesmo a desistir. Também era só por dizer que não ia para o lixo, não era? Eu e a Susana concordámos, vendíamo-lo por 30€.

Seguimos a Yazira para dentro do “cabeleireiro”. As aspas referem-se ao facto de que não me pareceu haver qualquer fonte de água e só havia um espelho e uma cadeira, onde estava sentado um homem preto musculado com uma camisa branca com manga cava e um terço de ouro ao pescoço.
“Senta aqui que eu vou cortar o teu cabelo” diz ele, para sempre baptizado de Beto, indicando-me a cadeira onde ele tinha estado sentado há uns segundos.
Onde é que eu me fui meter? Mas já não podia fugir.
Sentei-me e a Susana ficou à porta, nas minhas costas, sendo que eu, felizmente, a podia ver através do espelho.
Incrivelmente ele tinha uma bata preta, como nos cabeleireiros, que pôs à minha volta.
“Eu só quero cortar o cabelo para ela comprar, o corte de cabelo eu depois vou fazer noutro lado” informei assim que o Beto pegou na tesoura que mais parecia uma tesoura de cortar as unhas do que uma tesoura para cortar cabelo.
Sem mais conversas o Beto pegou numa madeixa no topo da minha cabeça e encostou a tesoura.
“Não!” gritei. “Eu não quero sair daqui já careca!”
O Beto puxou a tesoura um bocadinho mais para cima. Ok, assim eu já achava aceitável.
“Mas isso é pouco, não dá para eu usar” reclamou a Yazira, aproximando-se.
O Beto voltou a baixar a tesoura.
“Não, isso é muito. Eu não quero ficar careca.”
“Não, isso é pouco.”
O Beto fartou-se da discussão e cortou. Zash. Verdade seja dita, não sei se cortou por onde eu me sentia confortável ou por onde ela queria. Simplesmente cortou.
Já tinha começado.
Pegou noutra madeixa, mais a baixo. A Yazira esticou a madeixa já cortada ao lado, para servir de medida e zash, outra tesourada. Juntos repetiram o gesto uma, outra e outra vez. Um bocadinho por todo o lado da cabeça. Oh não, eu ia sair dali tipo palhaço! Não podia olhar.
Olhei para a Susana pelo espelho e percebi que aquele momento também era simbólico para ela. Comecei a deixar cair umas lágrimas.
Depois de terem cortado as madeixas de cima, o Beto decidiu cortar a parte de baixo, mais comprida por causa do escadeado, toda de uma vez. Zash.
Eu tinha o cabelo curto.
E não me ficava assim tão mal, nem tinha sido assim tão difícil.

O Beto entregou o rabo-de-cavalo completo à Yazira e passou à parte artística.
“Não, está bem assim!” disse eu.
Ele fingiu não me ouvir. Cortou mais um bocadinho aqui, aparou ali.
Atrás de mim já se tinham reunido mais umas amigas da Yazira e ela experimentava o meu cabelo, agora na cabeça dela, agora na cabeça de uma amiga, e utilizavam o meu espelho para verem os resultados.
“Eu vou fazer o corte de cabelo a outro lado” tentei explicar mais uma vez ao Beto, que se divertia a acertar o meu cabelo com um pente.
Pente 4, pente 3, pente 2, pente 3, pente 2, pente 1, pente 3, pente 2, pente 1.
A Yazira emprestou o meu cabelo a uma amiga para que o fosse pesar à loja de venda de cabelo mais próxima. “São 60 g” ouvi-a dizer, quando voltou.
“Está bem assim!” tentei novamente.
O Beto pegou numa navalha, incrivelmente a lamina era nova, estava ainda dentro da embalagem, mas eu quase saltei da cadeira.
“Não! Eu estou a tomar umas injecções que não posso ter cortes ou não se consegue estancar a hemorragia!” Eu e a Susana devíamos estar com um ar tão assustado que ele acedeu ao nosso pedido.
Olhei-me ao espelho.
O corte nem estava mau, parecia a Rihanna.
“Está óptimo assim” disse, numa tentativa de sair dali.
“Rihanna!” respondeu o Beto.
“Sim, isso! Rihanna!” estava feliz, pelo menos ele percebia o que eu estava a gostar e sabia do que eu estava a falar e não me ia deixar careca.
“Estou só a acabar.”
Pegou, novamente, na micro tesoura e tentou aparar as pontas. Zash, zash, zash. Ok Sofia, está com bom aspecto… Zash, zash. A Susana também aprovava através do espelho. Zash, zash. Estava quase a acabar.
Zash.
A pontinha que fazia com que o penteado fosse perfeito tinha-se ido à vida. E agora? Não dava para colar! E não ia crescer!

Ao menos já estava terminado.
O Beto limpou os cabelos de cima de mim e levantei-me.
Ficámos os quatro em pé, parados, a olhar uns para os outros. E agora? Faltava o pagamento.
A Susana entrou no cabeleireiro e aproximou-se de mim “Agora falta o pagamento.”
“Ah, sabes…” A Yazira aproximou-se de mim com o meu cabelo na mão, a falar baixinho. “O teu cabelo é pouquinho… E está estragado… Eu não o posso usar.”
“Agora ela já o cortou!” respondeu a Susana.
“São só 60 gramas…”
“Fazemos-to por 20€, ok?” resolveu a minha irmã.
Em silêncio a Yazira foi buscar a carteira (e largou o meu cabelo, desorganizado, em cima de uma mesa). Aproximou-se bem mais do que o necessário de nós e passou-me a nota de 20€ enrolada, como se eu, realmente, lhe estivesse a vender droga.
Com a nota ainda enrolada na mão eu e a Susana começámos a andar em marcha-a-trás para a porta. Quando estávamos mesmo na ombreira da porta…
“E o corte de cabelo?” perguntou o Beto.
“Eram 30€, ela pagou 20. Os outros 10 ficam para o corte de cabelo” respondeu prontamente a Susana.
E ala que se faz tarde.
Saímos dali as duas em passo de corrida, antes que alguém viesse atrás de nós.

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