A chegar ao fim

É verdade, já só me falta um ciclo! Felizmente o tempo passou bem mais depressa do que pensei quando a médica me disse, inicialmente, que seriam 8 meses de tratamento. Dia 16 (próxima terça-feira) faço o que, espero, seja o último tratamento de quimioterapia.

Felizmente nos últimos tratamentos não houve muitas alterações nem surpresas. As pulseiras anti-enjoo continuam a funcionar na perfeição, de tal forma que no dia seguinte ao último ciclo consegui estar a acordada o dia todo, preparar o bolo de aniversário da mãe e ficar acordada durante todo o jantar! O meu cabelo continua a crescer, embora não me pareça que seja o final – está fino como o dos bebés.

As consultas de psicologia do IPO são uma piada – consultas de 30 minutos uma vez por mês. Como é que é suposto eu ter apoio suficiente em 30 minutos por mês para algo tão complicado e life changing como cancro? Decidimos, então, procurar apoio no privado e, graças à recomendação da minha irmã Sara, acertei à primeira com a Dra. Tenho feito consultas semanais e as diferenças, pelo menos para mim, são notórias – menos um peso (ou parte dele) nos meus ombros. Ainda tenho uma consulta de psicologia no IPO na próxima semana, mas mais para informar que já não vou precisar de mais consultas e para, se a Dra. quiser, entrar em contacto com a minha actual psicóloga.

Tenho de, oficialmente, recomendar o livro A culpa é das estrelas do John Green a todos os que estejam interessados em compreender, um bocadinho, o que é estar deste lado – lidar, de repente, e tão cedo, com a nossa mortalidade e todos estes tratamentos. Embora o John Green não tenha passado por esta situação, trabalhou durante algum tempo com crianças com doenças mortais e baseou o livro no diário de uma rapariga real cuja história não terminou de forma feliz; para além disso a abordagem é muito real – afinal, e a maior parte das pessoas é culpada disso, as pessoas não passam a ser anjos e perfeitas só porque têm cancro. Eu sou a mesma pessoa, ou quase, que era antes – continuo a ter os meus defeitos e as minhas qualidades, não sou, de repente, melhor pessoa por ter passado por isto. E sim, há cancer perks e eu também me aproveito deles por vezes.

Voltando à parte médica disto: na última consulta, a Dra. Joana Parreira marcou o meu PET para o final de Janeiro para ter a certeza de que não há falsos positivos por ter vestígios de quimioterapia ainda no corpo, porque ela acha que não serão necessários mais tratamentos de qualquer tipo. Para um médico dar esperanças é porque a probabilidade é mesmo muito boa, certo?

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5º ciclo de quimioterapia

E já vou a mais de metade do tratamento!

Depois de muitas confusões com os horários dos médicos do IPO e com o facto de que o meu processo, em papel, precisa de 3 horas para ir de um edifício para outro – deve precisar de crescer pernas primeiro – finalmente consegui ir à consulta com a psicóloga. A psicóloga foi bastante mais normal e humana do que eu estava à espera, baseada numa experiência que tive com 12 anos, e, embora tivesse interrompido a consulta para atender um telefonema interno, correu bastante bem. Deveria lá voltar em breve, mas ao olhar para a agenda a psicóloga percebeu que “em breve” queria dizer mais de um mês depois. Não é como se eu tivesse a fazer alguma coisa que precisasse de acompanhamento ou estivesse doente ou assim…

Levei depois o TAC da 4a sessão à Dra. Joana, para avaliarmos o progresso. Embora também esta médica tivesse de atender um telefonema a meio da consulta, explicou-me que o tumor tinha reduzido para menos de 1/5 do tamanho, ou seja, tinha 403 cm3 antes da quimioterapia e agora já só tinha 90 cm3! No entanto ainda não está pequeno suficiente para os médicos tradicionais me considerarem curada e terei de continuar a quimioterapia até Dezembro, como inicialmente previsto.
Ainda tentei fazer outro TAC depois da 6a sessão, para confirmar que realmente teria de fazer as 8, mas os médicos tradicionais são assim e as coisas são feitas, muitas vezes, mais pelo livro do que pelo resultado – normalmente são precisas 8 sessões, vou ter de as fazer.
Antes de terminar a consulta também perguntei sobre as dores de garganta que tenho tido, e sobre estar preocupada com ficar doente, especialmente depois de ter ficado já uma semana internada. Mas as análises estavam bem e a minha garganta só parecia um bocadinho mais vermelha do que o normal, portanto não era para me preocupar.
“Tem tido febre?” perguntou-me. Não, acho que não, mas não medi por não me sentir febril. A minha mãe pediu para eu me aproximar e encostou-me os lábios à testa. “Não, não tem febre” disse à médica. E a médica nem quis confirmar; que método tão científico! “Vá controlando, se tiver febre, vem ao hospital” disse a médica, com um ar descansado. Pois, mas se eu chegar a ter febre então tenho de ficar internada! Porque não me dão qualquer coisa antes? Perguntámos especificamente se eu podia, ao menos, chupar pastilhas para aliviar e desinfectar e assim. “Eu não tomo, não acho que façam muito, mas se quiser tomar…” Também não está a fazer quimioterapia, pois não?
A minha mãe tem estado preocupada com as aulas de Zumba e Bodyjam que eu tenho aproveitado para fazer quando me sinto melhor e perguntou à Dra. se eu as podia fazer. “A Sofia não vai conseguir fazer aulas dessas!” Eu e a minha mãe olhámos uma para a outra. “Não, não está a perceber, ela já as fez” explicou a minha mãe. A Dra. Joana ficou definitivamente surpreendida, “A aula toda?”. Sim, todos os 60 minutos de dança. Sim, eu também estava surpreendida. Estou mais lenta e canso-me mais rapidamente, mas aguentei as aulas todas! E se mais aulas houvessem, a mais aulas eu iria! Sabe tão bem dançar e divertir-me com amigos e não me lembrar que estou doente…
Bem, se eu aguento, então posso fazer as aulas todas que eu quiser!

Tive novamente direito a uma cama para fazer o tratamento, que continua a passar rapidamente comigo a dormir o tempo todo.

Comprámos na farmácia, por indicações de amigas da minha mãe, umas pulseiras anti-enjoo. São dois elásticos, um para cada pulso, com um botão que faz pressão num ponto que alivia os enjoos. São super fáceis de colocar, a caixa tem instruções, e pode-se tirar e meter quantas vezes quisermos, molhar e lavar e tudo. As que comprámos chamam-se Sea Band, não sei se há outras marcas, e existem em tamanho de adulto e criança.
Comecei também a tomar cápsulas de carvão vegetal, cerca de 4 por dia, para que absorvessem todos os químicos no meu sistema.
Entre estes dois novos produtos, a minha recuperação foi muito melhor! Não tive enjoos, nem a sensação de espuma no estômago que tenho tido, nem nada que se parecesse! No primeiro dia estava cansadíssima, claro, de tal forma que nem tinha forças para falar, mas era de esperar. Mas no 3o dia já estava a ir às compras com a minha mãe e avó e a jantar fora!

Faltam 3 sessões e parece que já descobri o truque para uma recuperação rápida e quase indolor!

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Consultas com o Dr. Fritz

Para os interessados, o Dr. Rubens vai voltar a estar em Portugal ainda este mês. As consultas são em Oeiras, e podem ser marcadas para dia 21 ou 22 de Outubro através do telefone: 91 634 08 63.

Quem tiver mais questões não hesite em entrar em contacto comigo – responderei a tudo o que puder.

4º ciclo de quimioterapia

Gostava de ter escrito, novamente, depois do tratamento, mas durante as últimas semanas bastava-me pensar na quimioterapia e o meu estômago dava uma volta. É psicológico, claro, tal como o frango cozido com arroz integral que comi depois do primeiro ciclo e que agora me dá vómitos só de pensar…

Chegámos cedíssimo ao IPO, desta vez para eu fazer análises no próprio dia. As análises são rápidas e fáceis, é só tirar um bocadinho de sangue (3 tubinhos) e fazer recolha de urina para outros dois e já está. Mas, para variar, a consulta com a Dra. Joana Parreira atrasou. Atrasou tanto que a mãe já tinha ido buscar o livro de reclamações quando finalmente me chamaram.

A Dra. é sempre muito despachada, nem me deixa sentar na cadeira – logo para a maca! Apalpa aqui, ausculta ali, verifica a garganta. Está tudo bem. Há queixas? Não? Óptimo, vamos lá então.
Perguntei do TAC, que ainda não tinha sido marcado pelo IPO, como era de esperar, e pedi uma requisição para fazer fora.
“Tínhamos falado em 8 ciclos não era? Não devemos precisar de todos!” Disse, ao passar a requisição. Pelos vistos também ela estava surpreendida com os resultados do primeiro raio-x após a quimioterapia.
Mostrei também os resultados do ecodoppler que tinha feito – está tudo de volta ao normal. Podia deixar de tomar injeções e passar aos comprimidos, mas isso implicava tomar mais uns comprimidos todos os dias durante mais uns quantos meses. Em vez disso vou passar para metade da dose das injeções de enoxaparina e, depois do resultado do TAC, em princípio deixo mesmo de tomar o que quer que seja! Pelo menos parte do tratamento resultou!

Voltei a ter direito a um quarto para fazer a quimioterapia, e ainda bem. Assim que o tratamento começa eu adormeço e só acordo mesmo no fim, quando começa a haver mais movimento no quarto.

A recuperação da quimio está a tornar-se mais longa e difícil, com mais enjoos e náuseas e quebras de tensão. Mas tenho de ficar positiva e saber que já vou a mais de metade do tratamento – estou próxima do fim da batalha.

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3º ciclo de quimioterapia

Deveria ter escrito mais sobre o terceiro ciclo de quimioterapia, e mais cedo, mas ainda vou a tempo de o registar antes de um novo ciclo.

A Dr. Joana Parreira estava de férias na altura da minha consulta/quimioterapia, pelo que fui atendida pela Dr. Francesca. Levei-lhe o raio-x que me tinham feito nas urgências do Hospital de Alfena quando fui internada, no mês passado, para que guardassem o registo e para que pudéssemos avaliar a evolução do tumor. Também tinha feito, logo depois do 2º tratamento de quimioterapia, um raio-x no IPO, que queríamos comparar. A Dr. mostrou-nos os dois e meteu-os lado a lado com o primeiro raio-x que me tinham feito, mesmo antes de eu começar a tomar a cortisona, e fez umas medições para que tivéssemos uma ideia da proporção do tumor. Se, inicialmente, o tumor tinha quase 13 cm de largura, no final do primeiro ciclo já só tinha 10 cm.
Claro que isto ainda parece enorme, mas só tinha feito um ciclo de quimioterapia e ainda não tinha feito o 2º tratamento com o Dr. Fritz, para além de que a primeira batalha é fazer com que o tumor tenha menos de 5 cm.

Os 5 cm pode parecer muito aleatório, mas as duas Dras. partilham da mesma opinião – se o tumor tiver menos de 5 cm no TAC, fazemos um PETC para verificar se o tumor ainda está activo (e por isso continua a tentar multiplicar-se) ou se passou a ser benigno, ou seja, podemos deixa-lo estar, mantendo vigilância, mas não tenho de fazer nenhum outro tipo de tratamento. Com menos de 5 cm mas activo teremos de pensar noutros tratamentos, como a radioterapia, ou continuar com a quimioterapia, mas isso é uma outra batalha, para a qual só iremos planear se o momento chegar.

O 3º ciclo de quimioterapia atrasou-se mais de uma hora e, quando finalmente me chamaram, pediram que me dirigisse ao hospital de dia 2 e não ao 1, como no 2º ciclo. Afinal os tratamentos são mesmo como nos filmes – uma sala (vá, um barracão de alumínio transformado em sala de tratamento) nas traseiras do edifício com vários cadeirões reclinados à volta, todos eles ocupados excepto o meu, e duas enfermeiras que falavam alto entre elas. Eu entrei com a minha taça de sopa por comer e sentei-me no meu cadeirão em silêncio. Não me perguntaram nada e eu nada disse. Tirei da mala tudo o que podia precisar, se não ia dormir – um livro, o telemovel e os phones. Comi a sopa e esperei pela enfermeira. Inicialmente pensei não precisar de uma manta, afinal até estava bastante calor na rua, mas rapidamente percebi que o ar condicionado estava mesmo por cima de mim e estava gelado. Pedi uma manta pouco depois de começar o tratamento, mas acabei por ter de pedir uma segunda e, com as duas mãos ocupadas, uma com o catéter, a outra com o medidor de pulsação e de tensão arterial, tentei cobrir-me o melhor que pude. O sono foi rápido, novamente, mas o cadeirão é muito desconfortável, em comparação com a cama dos dois tratamentos anteriores, e eu cabeceei durante as 4 horas do tratamento, ora para a esquerda, ora para a direita.

A recuperação do tratamento foi, também, muito pior do que as anteriores – mais enjoos e mau estar, mais cansaço e indisposição… mas nada que eu não consiga ultrapassar! Só passado 7 dias é que comecei a sentir-me mais normal, bastante mais tempo do que no 1º e 2º ciclos, mas descobri que a água com gás é a minha melhor amiga nestas alturas e estar a descansar ajuda muito.

A segunda semana do ciclo traz os dias de menor imunidade, ou seja, nada de espaços públicos. Felizmente a minha irmã Sara precisava de ajuda a montar os móveis da sua casa nova e, embora eu me sentisse cansada e não pudesse ajudar muito, foi óptimo poder sair e sentir-me algo útil por algumas horas.

Ter a vida em pausa está a começar a afectar-me mais do que alguma vez imaginei. Não tenho pressa para fazer nada e tenho vontade de fazer muito pouco – não tenho trabalho, mas também não posso começar agora a procurar, não há pressa para fazer a tese porque não a vou apresentar antes de Abril e não posso trabalhar com os meus orientadores enquanto estiver por Lisboa, não posso publicitar o Chá das Cinco nem trabalhar em novas receitas, porque não tenho os meus materiais e nem devo comer nada com açúcar (e é impossível fazer e não comer nunca), para além de que, durante um largo espaço de tempo, a ideia de cozinhar enjoa-me.

Por isso esta semana passada vim ao Porto. Foi uma lufada de ar fresco. Durante uma semana não me senti doente, não senti que o meu dia era contado em comprimidos e injecções, não estava fechada em casa à espera que o tempo passasse. Os meus amigos foram cinco estrelas e vieram até minha casa nos primeiros dias, para que eu não tivesse de estar em locais públicos, e, depois, começaram a levar-me a fazer as coisas que sabem que eu gosto – tomar chá, passear junto ao mar, passar horas na conversa… Não podia ter pedido uma semana melhor, mesmo com toda a gente a trabalhar!

Agora estou pronta para o 4º ciclo de quimioterapia, na terça-feira, com um novo animo e muita força. Afinal, já vou a meio da batalha.

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Deveria preocupar-me com o facto de que a minha ficha no IPO ainda é em papel?

E, quando sou vista por uma médica nova, ter de ser eu a explicar o que tenho porque ela não consegue ler a letra da colega?

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Dr. Rubens / Dr. Fritz

Há coisas que o melhor é não tentarmos entender. Há coisas que, realmente, quanto mais tentamos entender menos compreendemos e menos sentido fazem. E então nós aceitamos, acreditamos, e esperamos, com todas as forças, que ajudem.

O Dr. Rubens é uma dessas coisas. O Dr. Rubens é um senhor brasileiro, com cerca de 60 anos, que há cerca de 30 anos diz ter encarnado o espírito de um médico alemão da 1a guerra mundial – o Dr. Fritz. Se me tivessem dito só isto eu ter-me-ia rido e achado que estava na presença de um charlatão e virado as costas; mas a história não acaba aí.
Há mais de 10 anos um colega do meu pai tinha um filho em estado terminal no hospital com leucemia; desesperado, o senhor foi ao Brasil procurar o Dr. Rubens. Porque o filho estava internado o Dr. Rubens não lhe podia chegar, então sugeriu dar uma injecção no pai que iria curar o filho. Pediu-lhe que avisasse no hospital que o miúdo ia ter febres de 40•, mas que não lhe deviam dar nada que a febre ia baixar sozinha e, depois, ele ficaria bem. A verdade é que já se passaram mais 10 anos e o miúdo, que já não é miúdo nenhum, está bem e sem sinal de leucemia.
Há 8 anos atrás um amigo dos meus pais descobriu que tinha os valores do PSA altíssimos; os hospital deu-lhe 6 meses de vida. O Dr. Rubens viu-o, deu-lhe umas injecções, e receitou-lhe alguns medicamentos naturais. Oito anos depois o senhor continua cá, contra todas as expectativas.
Como estes exemplos temos muitos outros, incluindo uma enfermeira que auxiliou o Dr. Rubens durante uns anos cá em Portugal e o viu a operar sem sangue, e, quem tiver curiosidade, pode procurar no youtube vários vídeos das operações do Dr. Rubens (ou do Dr. Fritz).

Dito isto, é a quinta vez que vejo o Dr. Rubens desde o meu diagnóstico. As primeiras duas vezes vimo-nos no Brasil, de urgência, ainda antes de eu começar a quimio. Foi o Dr. Rubens que me alertou para várias alterações que eu tinha de fazer na minha alimentação e que me deu muitos suplementos. Para além disso no primeiro dia deu-me uma injecção perto do tumor (por debaixo do braço), que repetiu no segundo dia, juntamente com uma injecção na coluna. O que ele injecta nós não sabemos e, na realidade, não questionamos – talvez seja melhor assim. O que é certo é que, mesmo a tomar injecções de enoxaparina de 12 em 12 horas, nenhumas das injecções sequer fez uma gotinha de sangue e, a injecção na coluna, que me deixou apreensiva, não doeu mais do que uma vacina.

O Dr. Rubens veio a Portugal esta semana, para dar consultas no dia 14, 15 e 16, e pediu para me ver nos três dias. Não sabíamos o que é que ele ia fazer ou dizer e isso deixa-me sempre nervosa. Mas o Dr. Rubens é muito simpático e, como a minha mãe diz, humano.
Mal entramos no consultório ele sorri e diz no seu sotaque brasileiro “Ah, como você está óptima!”, o que nos deixa muito à vontade. Na primeira consulta perguntou como as coisas estavam a correr, voltou a falar no sumo horrível que eu devo beber, e perguntou sobre os suplementos. Felizmente eu tinha levado a lista que tinha entregue à Dra. Joana comigo, e pude mostra-la.
“Quem deu isso aí?” perguntou a meio da lista.
“O Doutor…” respondemos confusas.
“Homem inteligente, esse!” riu-se.
Depois de verificar toda a lista concluiu que eu estava a tomar Vitamina C em demasia, ou melhor, desnecessária, porque o corpo não a absorve na totalidade por via oral e, por isso, o que excede o que o corpo necessita, é descartado. Depois retirou os dois suplementos que a Romilda tinha indicado, que estavam no meio da lista, antes mesmo de eu dizer que tinha sido outra pessoa a indicar, e acrescentou mais uma lista de suplementos e medicamentos homeopáticos para começar a tomar o quanto antes.
A consulta ficou por aí.

As outras duas consultas foram muito semelhantes entre si, embora a minha companhia sempre diferente – a mãe, o pai e até a Susana foram conhecer o Dr. Rubens. O Dr. recebe-nos com um grande sorriso, um aperto de mão, pergunta-me se está tudo bem e depois “Vamos a isso?”.
Deito-me na marquesa sem a t-shirt e pergunto “Hoje quantas são?”
“Vamos dar três injecções hoje, não tem problema não” responde o Dr. Rubens, enquanto tenta retirar a capsula de protecção de um frasco de vidro.
“Onde?”
“Uma aqui” aponta para a zona da clavícula, “outra por baixo do braço e outra na coluna.”
Eu confesso-lhe que a injecção na coluna me deixa nervosa, que ouve-se falar tanto em pessoas que ficaram paralisadas e que dói imenso e que, mesmo já a tendo experimentado, sem problemas, me deixa mais inquieta.
“Já viu isso? O que a preocupa é onde vai levar a injecção!” riu-se para o meu pai. “Mas não se preocupa não, há anos que dou essa injecção e nunca ninguém ficou paralisado!”
Desinfecta a seringa, enche-a com o conteúdo transparente do frasco, e aproxima-se de mim.
“Fala coisa boa” pede-me, apalpando a minha clavícula esquerda e a zona adjacente.
E eu conto o que me lembro, qualquer coisa mesmo, como o facto de que a minha peruca veio dos Estados Unidos, oferecida por uma rapariga simpática que eu nem conheço. O Dr. pede-me para levantar o braço, desinfecta a área perto da minha axila, e comenta em como os mídia ajudam nestas coisas boas, também. Mais uma injecção.
“Agora vamos deitar de lado, em injecção fetal mesmo.” Eu obedeço. “Fala outra coisa boa.”
“Erg, não sei…”
“O que comeu ontem para o jantar?” perguntou-me o médico na última consulta, quando eu esgotei ideias do que contar.
“Ontem… Ontem comi o arroz de frango que a Susana queria comer!”
“Está a doer?” perguntou-me o Dr. Rubens.
Não, não estava. Nem tinha sentido a picada. Ele bateu na seringa ou em mim, não sei bem, e perguntou novamente “Dói alguma coisa?”
“Não.”
“E agora?”
“Não.”
“Já está. Pode vestir.”
E não me tinha doido nada. Absolutamente nada.
O Dr. Rubens voltou a sentar-se à secretária e eu sentei-me à frente dele, a arranjar o turbante, que entretanto se tinha desfeito. Ele volta cá em Outubro e quer ver-me novamente. Expliquei-lhe que, nessa altura, já deveria ter o resultado do próximo TAC e, esperávamos nós, se calhar já não precisaria de fazer quimioterapia.
Infelizmente o Dr. Rubens não parece tão certo disso – mesmo que o tumor tenha desaparecido, segundo ele, a medicina tradicional vai querer fazer mais sessões para garantir que não volta mais. Essa não foi a ideia com que eu fiquei da conversa com a médica mas, realmente, parece algo que os médicos tradicionais fariam.
Depois das injecções fiquei deitada no carro, à porta do consultório, durante uma hora – uma medida de precaução para que eu não tivesse problemas de pressão arterial ou tonturas.

Quem pode passar por tudo isto e não ter quase efeitos secundários da quimioterapia, e dizer que não acredita no Dr. Rubens e no Dr. Fritz?

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2º ciclo de quimioterapia

Ontem voltámos ao IPO para mais uma consulta com a Dra. Joana e para o segundo ciclo de quimioterapia.

A consulta estava marcada para as 9h40 mas, para variar, fui atendida duas horas depois. As análises que tinha feito na segunda-feira estavam óptimas, a Dra. fez apalpação e não encontrou nenhum problema com os gânglios, e portanto estava tudo OK para passar à quimioterapia.

Aproveitei, então, para fazer algumas perguntas e esclarecer algumas confusões e informações contraditórias.
• A Dra. Joana não confirma que o açúcar faça pior às células cancerígenas – eu continuo a achar que é boa ideia evitar, mas não preciso de fugir de tudo o que tem açúcar como o diabo da cruz;
• Posso ir à praia desde que o faça como um bebé: sol só entre as 8h e as 10h ou as 18h e as 20h, sempre com factor 50. Até posso tomar banho no mar, embora não esteja a ver isso a acontecer…
• A altura em que estou mais susceptível a doenças não é logo depois da quimio, mas sim entre o 8o e o 13o dia, ou seja, nessas alturas é que convém não ir a sítios públicos, onde é mais fácil contrair doenças;
• Posso fazer todo o exercício físico que me faça sentir bem, ou seja, não estou proibida de fazer nada desde que eu aguente e me sinta bem durante e depois. É normal que não tenha tanta força/cardio como tinha antes do tratamento, mas isso não implica que eu fique sentada o dia todo;

Para além destas novas informações a Dra. prescreveu-me já as injecções do factor de crescimento, para eu tomar ao 8o dia depois da quimio, para evitar a descida dos glóbulos brancos. Como estas injecções, que me foram dadas durante o internamento no Porto, me deram imensas dores de ossos (estimulam a medula, logo os ossos doem), posso tomar analgésicos durante os 3 dias de injecções e, se as dores forem mesmo muitas, devo só fazer 2 dias. Em princípio isto evitará outra visita ao internamento.

Falei também com a Dra. sobre todos os suplementos que estou a tomar, ao que a Dra. confessou nem conhecer alguns deles e estar apenas preocupada com os efeitos secundários ou efeitos maximizados pelos medicamentos incluídos na quimioterapia. Eu voltei a tomar os suplementos hoje e vamos ver como as coisas andam, o mais fácil é ir avaliando com a passagem do tempo.

Eu e a Dra. partilhamos alguma curiosidade em ir vendo a evolução regressão do tumor, pelo que fiz novamente um raio-x depois da consulta e tenho outro marcado para daqui a 3 semanas, antes da próxima sessão de quimioterapia.

Mal tinha acabado a consulta quando me telefonaram a dizer que podia fazer a quimioterapia uma hora antes – óptimo. Fui entrando enquanto a mãe e o Ruca tratavam de marcar consultas e levantar prescrições médicas. Eu pensava que a quimio era feira em cadeiras numa sala “pública”, mas afinal é em pequenos quartinhos com uma cama – e ainda bem! Antes do Ruca ter tempo de me encontrar já me tinham dado o antihistaminico intravenoso, e eu estava a adormecer rapidamente! O pobre do Ruca ficou quase 4 horas a olhar para mim a dormir, sentado numa cadeira desconfortável! Se isto for sempre assim mais vale deixarem-me sozinha, ao menos não me sinto mal por estar a dar uma grande seca a quem lá estiver.

Sempre ouvi dizer que fazer a quimio era uma coisa horrível – não me interpretem mal, os efeitos secundários não são nada fáceis e eu estou a ter muita sorte por enquanto – mas a sessão quimioterapia em si não é nada de mais! Cheguei ao meu quartinho, ajeitaram-me a cama, deram-me uma manta e puseram-me um cateter. Depois deixaram-me com um monitor de tensão e pulsação que ia medindo de 30 em 30 minutos e começaram a dar-me o ben-u-ron intravenoso, ou seja, no cateter. Depois o antihistaminico. Vem o sono, começo a adormecer e atropelar as palavras, mas estou deitadinha na cama, não tem problema nenhum. Eventualmente a enfermeira troca os sacos da medicação e começo a fazer a quimioterapia sem sequer dar por isso. No meio disto, por ser hora de almoço, ainda me trouxeram uma sopa e uma maçã assada. No fim a enfermeira veio acordar-me, tirar o cateter e já está. Saio com sono e a querer dormir 24 horas, mas é só isso.
Eu sei que tudo isto depende de pessoa para pessoa, mas pelo que vi nos quartos ao lado, toda a gente dorme e ninguém parecia agitado sequer.

Ontem às 17h já estava na cama e, excepto uma meia hora para beber água e tomar medicamentos, dormi até as 10h da manhã de hoje e ainda fiz outra sesta antes de almoçar.

Para além do sono estou ligeiramente enjoada, alguns cheiros fazem-me confusão, mas é só isso. Eu estou a vencer esta batalha.

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Perucas

É nestas alturas que as pessoas fazem as coisas mais incríveis por nós e nos deixam completamente sem palavras.

A minha amiga Né tinha falado com uma blogger, a Jenny, sobre perucas e a qualidade das perucas coreanas. Na conversa explicou à Jenny que eu ia precisar de uma porque o cabelo me iria cair com a quimio. E a Jenny, que não me conhece nem nunca, sequer, falou comigo, enviou-me uma das perucas que ela já não precisava (tinha-a comprado para sessões fotográficas, não por causa de doença)! Por isso há uns dias chegou a casa dos meus pais um lindo pacote com uma peruca linda e um cartão a desejar-me as melhoras.

Hoje o Ruca rapou-me o cabelo que sobrava, depois a Sara fez uma trança na minha peruca nova, e eu vim passea-la às análises do IPO (amanhã há quimio)!

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Obrigada, Jenny!

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