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Dr. Rubens / Dr. Fritz

Há coisas que o melhor é não tentarmos entender. Há coisas que, realmente, quanto mais tentamos entender menos compreendemos e menos sentido fazem. E então nós aceitamos, acreditamos, e esperamos, com todas as forças, que ajudem.

O Dr. Rubens é uma dessas coisas. O Dr. Rubens é um senhor brasileiro, com cerca de 60 anos, que há cerca de 30 anos diz ter encarnado o espírito de um médico alemão da 1a guerra mundial – o Dr. Fritz. Se me tivessem dito só isto eu ter-me-ia rido e achado que estava na presença de um charlatão e virado as costas; mas a história não acaba aí.
Há mais de 10 anos um colega do meu pai tinha um filho em estado terminal no hospital com leucemia; desesperado, o senhor foi ao Brasil procurar o Dr. Rubens. Porque o filho estava internado o Dr. Rubens não lhe podia chegar, então sugeriu dar uma injecção no pai que iria curar o filho. Pediu-lhe que avisasse no hospital que o miúdo ia ter febres de 40•, mas que não lhe deviam dar nada que a febre ia baixar sozinha e, depois, ele ficaria bem. A verdade é que já se passaram mais 10 anos e o miúdo, que já não é miúdo nenhum, está bem e sem sinal de leucemia.
Há 8 anos atrás um amigo dos meus pais descobriu que tinha os valores do PSA altíssimos; os hospital deu-lhe 6 meses de vida. O Dr. Rubens viu-o, deu-lhe umas injecções, e receitou-lhe alguns medicamentos naturais. Oito anos depois o senhor continua cá, contra todas as expectativas.
Como estes exemplos temos muitos outros, incluindo uma enfermeira que auxiliou o Dr. Rubens durante uns anos cá em Portugal e o viu a operar sem sangue, e, quem tiver curiosidade, pode procurar no youtube vários vídeos das operações do Dr. Rubens (ou do Dr. Fritz).

Dito isto, é a quinta vez que vejo o Dr. Rubens desde o meu diagnóstico. As primeiras duas vezes vimo-nos no Brasil, de urgência, ainda antes de eu começar a quimio. Foi o Dr. Rubens que me alertou para várias alterações que eu tinha de fazer na minha alimentação e que me deu muitos suplementos. Para além disso no primeiro dia deu-me uma injecção perto do tumor (por debaixo do braço), que repetiu no segundo dia, juntamente com uma injecção na coluna. O que ele injecta nós não sabemos e, na realidade, não questionamos – talvez seja melhor assim. O que é certo é que, mesmo a tomar injecções de enoxaparina de 12 em 12 horas, nenhumas das injecções sequer fez uma gotinha de sangue e, a injecção na coluna, que me deixou apreensiva, não doeu mais do que uma vacina.

O Dr. Rubens veio a Portugal esta semana, para dar consultas no dia 14, 15 e 16, e pediu para me ver nos três dias. Não sabíamos o que é que ele ia fazer ou dizer e isso deixa-me sempre nervosa. Mas o Dr. Rubens é muito simpático e, como a minha mãe diz, humano.
Mal entramos no consultório ele sorri e diz no seu sotaque brasileiro “Ah, como você está óptima!”, o que nos deixa muito à vontade. Na primeira consulta perguntou como as coisas estavam a correr, voltou a falar no sumo horrível que eu devo beber, e perguntou sobre os suplementos. Felizmente eu tinha levado a lista que tinha entregue à Dra. Joana comigo, e pude mostra-la.
“Quem deu isso aí?” perguntou a meio da lista.
“O Doutor…” respondemos confusas.
“Homem inteligente, esse!” riu-se.
Depois de verificar toda a lista concluiu que eu estava a tomar Vitamina C em demasia, ou melhor, desnecessária, porque o corpo não a absorve na totalidade por via oral e, por isso, o que excede o que o corpo necessita, é descartado. Depois retirou os dois suplementos que a Romilda tinha indicado, que estavam no meio da lista, antes mesmo de eu dizer que tinha sido outra pessoa a indicar, e acrescentou mais uma lista de suplementos e medicamentos homeopáticos para começar a tomar o quanto antes.
A consulta ficou por aí.

As outras duas consultas foram muito semelhantes entre si, embora a minha companhia sempre diferente – a mãe, o pai e até a Susana foram conhecer o Dr. Rubens. O Dr. recebe-nos com um grande sorriso, um aperto de mão, pergunta-me se está tudo bem e depois “Vamos a isso?”.
Deito-me na marquesa sem a t-shirt e pergunto “Hoje quantas são?”
“Vamos dar três injecções hoje, não tem problema não” responde o Dr. Rubens, enquanto tenta retirar a capsula de protecção de um frasco de vidro.
“Onde?”
“Uma aqui” aponta para a zona da clavícula, “outra por baixo do braço e outra na coluna.”
Eu confesso-lhe que a injecção na coluna me deixa nervosa, que ouve-se falar tanto em pessoas que ficaram paralisadas e que dói imenso e que, mesmo já a tendo experimentado, sem problemas, me deixa mais inquieta.
“Já viu isso? O que a preocupa é onde vai levar a injecção!” riu-se para o meu pai. “Mas não se preocupa não, há anos que dou essa injecção e nunca ninguém ficou paralisado!”
Desinfecta a seringa, enche-a com o conteúdo transparente do frasco, e aproxima-se de mim.
“Fala coisa boa” pede-me, apalpando a minha clavícula esquerda e a zona adjacente.
E eu conto o que me lembro, qualquer coisa mesmo, como o facto de que a minha peruca veio dos Estados Unidos, oferecida por uma rapariga simpática que eu nem conheço. O Dr. pede-me para levantar o braço, desinfecta a área perto da minha axila, e comenta em como os mídia ajudam nestas coisas boas, também. Mais uma injecção.
“Agora vamos deitar de lado, em injecção fetal mesmo.” Eu obedeço. “Fala outra coisa boa.”
“Erg, não sei…”
“O que comeu ontem para o jantar?” perguntou-me o médico na última consulta, quando eu esgotei ideias do que contar.
“Ontem… Ontem comi o arroz de frango que a Susana queria comer!”
“Está a doer?” perguntou-me o Dr. Rubens.
Não, não estava. Nem tinha sentido a picada. Ele bateu na seringa ou em mim, não sei bem, e perguntou novamente “Dói alguma coisa?”
“Não.”
“E agora?”
“Não.”
“Já está. Pode vestir.”
E não me tinha doido nada. Absolutamente nada.
O Dr. Rubens voltou a sentar-se à secretária e eu sentei-me à frente dele, a arranjar o turbante, que entretanto se tinha desfeito. Ele volta cá em Outubro e quer ver-me novamente. Expliquei-lhe que, nessa altura, já deveria ter o resultado do próximo TAC e, esperávamos nós, se calhar já não precisaria de fazer quimioterapia.
Infelizmente o Dr. Rubens não parece tão certo disso – mesmo que o tumor tenha desaparecido, segundo ele, a medicina tradicional vai querer fazer mais sessões para garantir que não volta mais. Essa não foi a ideia com que eu fiquei da conversa com a médica mas, realmente, parece algo que os médicos tradicionais fariam.
Depois das injecções fiquei deitada no carro, à porta do consultório, durante uma hora – uma medida de precaução para que eu não tivesse problemas de pressão arterial ou tonturas.

Quem pode passar por tudo isto e não ter quase efeitos secundários da quimioterapia, e dizer que não acredita no Dr. Rubens e no Dr. Fritz?

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