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2014 em selfies

2014

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Perucas

É nestas alturas que as pessoas fazem as coisas mais incríveis por nós e nos deixam completamente sem palavras.

A minha amiga Né tinha falado com uma blogger, a Jenny, sobre perucas e a qualidade das perucas coreanas. Na conversa explicou à Jenny que eu ia precisar de uma porque o cabelo me iria cair com a quimio. E a Jenny, que não me conhece nem nunca, sequer, falou comigo, enviou-me uma das perucas que ela já não precisava (tinha-a comprado para sessões fotográficas, não por causa de doença)! Por isso há uns dias chegou a casa dos meus pais um lindo pacote com uma peruca linda e um cartão a desejar-me as melhoras.

Hoje o Ruca rapou-me o cabelo que sobrava, depois a Sara fez uma trança na minha peruca nova, e eu vim passea-la às análises do IPO (amanhã há quimio)!

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Obrigada, Jenny!

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Vendi o meu cabelo

Saímos da primeira consulta com a Dra. Joana Parreira com muitas dúvidas mas duas certezas: eu vou começar a fazer quimioterapia e o meu cabelo vai cair.

Por isso, começámos logo a discutir as minhas opções.

E se eu aproveitasse o cabelo que ainda tenho, não que seja muito nem em muito bom estado, para fazer uma peruca? Afinal, fazem-se perucas de cabelo humano, não é? Liguei logo para o cabeleireiro do IPO para saber se isso seria sequer uma opção. Não devo ter sido a primeira pessoa a pensar nisso porque quem me atendeu explicou logo que, infelizmente, não, era necessário cabelo de mais do que uma pessoa para se fazer uma peruca, mas que o poderia doar. Ora, doar para outra pessoa não era bem o que eu tinha em mente.

Durante o almoço a minha irmã Sara comentou que, uma vez, lhe tinham dito que o cabelo dela valia mil euros se ela o vendesse para extensões. Mil euros? Ok, o meu cabelo não era tão comprido quanto o dela e estava em muito pior estado, graças a todas as cores de que eu já o tinha pintado e ao meu défice de vitamina B12; mas deveria valer alguma coisa. E se eu o vendesse? O século XXI tem coisas magníficas, entre elas o google: “vender cabelo lisboa” procurei no momento. Sim, estou consciente que esta deve ser daquelas pesquisas que, no final do ano, entram na lista das mais estranhas/incríveis. Mas havia resultados, e não eram assim tão poucos. O primeiro era uma notícia do jornal i. Incrível, afinal havia sítios onde se comprava e vendia cabelo em Lisboa. Era isso que eu ia fazer – aproveitar que o cabelo ainda estava saudável para o vender e, com esse dinheiro, poder comprar uma peruca.

A caminho do carro, depois do almoço, ainda passámos num cabeleireiro que dizia fazer extensões de cabelo humano. De lá encaminharam-nos, um bocadinho descrentes, para a Great Lenghts na Av. Estados Unidos da América, de onde eles compravam as extensões. Como era mais perto, fomos bater a essa porta primeiro. A rapariga que nos atendeu explicou que não, não compravam cabelo, porque tinha de ser logo tratado e que eles importavam as cabeleiras e as extensões, mas, já que estava ali, podia experimentar uma cabeleira. A cabeleira que eu experimentei era espetacular, não dava mesmo para perceber que não era o meu cabelo e, segundo a vendedora, eu até podia dormir com ela posta e lava-la no banho como se fosse o meu cabelo… mas custava 990€. Obrigada, mas ainda temos de pensar.

Não tendo nada a perder decidimos experimentar o Centro Comercial Babilónia, na Amadora, tal como dizia no artigo do jornal i.

O Centro Comercial Babilónia, obviamente, não tem estacionamento. Por isso, enquanto a mãe dava voltas a tentar estacionar, eu e a minha irmã Susana fomos andando. Assim que entrámos sentimo-nos deslocadas, nós não pertencíamos ali – nós sabíamo-lo e o resto das pessoas no Centro Comercial, também.
“E agora?” perguntei à Susana, ainda à porta. “Como sabemos onde é o cabeleireiro?”
Felizmente havia algumas placas informativas à porta. Cabeleireiro loja 3, Cabeleireiro loja 11, Cabeleireiro loja 25… Com tantos cabeleireiros o melhor era entrar e perguntar.

Se nos pareciam muitos cabeleireiros pelas placas à porta, lá dentro percebemos que isso não era nada: porta sim, porta sim, havia um cabeleireiro. Na realidade só há 3 tipos de lojas no Centro Comercial Babilónia – lojas de telemóveis (daqueles com desconto mas que só têm instruções em espanhol e a ficha é americana ou semelhante), cabeleireiros e lojas de venda de cabelo. É verdade, existem lojas que só vendem cabelo. E os cabeleireiros do Centro Comercial Babilónia, na sua maioria, também vende cabelos. São vitrines e vitrines carregadas de rabos-de-cavalo de todas as cores, comprimentos e estilos. Só visto.

“Por onde começamos?”
O melhor era perguntar.

“Boa tarde, estávamos à procura de um sítio onde compram cabelo…” perguntávamos.
“Ah, não… não é aqui. Nós não compramos cabelo.” respondiam-nos logo os funcionários, com um sorriso comprometido.
“Boa tarde, queria vender o meu cabelo…” perguntávamos no cabeleireiro seguinte.
“Ah, não… aqui não compramos cabelo.” respondiam outros funcionários, novamente com um ar comprometido.
Tantas vezes isto se repetiu que, às tantas, a Susana diz “Se calhar isto é como comprar droga. Se quiseres comprar droga também não vais dizer que queres comprar droga, não é? Deve ter outro nome qualquer!”
“E como é que eu sei que nome é esse?”
Como não havia outra maneira de descobrir continuámos a nossa demanda até nos depararmos com um cabeleireiro onde um dos homens a ser atendido me respondeu (os cabeleireiros para africanos são quase unisexo, toda a gente faz tranças e as mulheres, na sua maioria, depois cose cabelo de caucasiana ou indiana ou assim, a essas tranças).
“Mas porque é que queres vender o teu cabelo? É tão bonito.”
Respirei fundo. “Eu tenho cancro. Ele vai cair. Queria vende-lo antes disso, se hei de o deitar fora…”
“Ah, eu percebo.” Virou-se para nós na cadeira. “A minha tia também teve.”
“Pois…”
“Olha, vais lá a baixo e perguntas pelo Beto. O Beto vai comprar o teu cabelo.”
O Beto? O Beto vai comprar o meu cabelo? A sério? E como raio era suposto eu encontrar o Beto?
Mas nem eu nem a Susana quisemos fazer mais questões. Agradecemos e saímos.
Antes de encontrarmos as escadas eu decidi arriscar mais uma vez num cabeleireiro enfeitado com rabos-de-cavalo.
Repeti a história do cancro, o cabelo cair, preferir vende-lo.
“Lá em baixo, ao lado da loja de roupa 69, perto dos Kebabs… Falas com a Yazira. Era vai comprar o teu cabelo.”
“Disseram-me para procurar o Beto.”
“Sim, é isso. Fala com eles.”
O Beto. A Yazira. A loja 69. Os Kebabs. Okay.

Eu e a Susana estávamos tão pasmadas com tudo aquilo que nos limitámos a obedecer. Ou a tentar obedecer, porque não encontrámos nem os Kebabs nem a loja 69. Mas eu acho que encontrámos a Yazira e o Beto.

“Posso ajudar” perguntou uma rapariga africana a quem, para sempre, hei de chamar Yazira ou coisa parecida. Estava encostada à vitrine de, mais um, cabeleireiro decorado com rabos-de-cavalo.
“Erg… Estamos à procura de um sítio para vender cabelo…” comecei a explicar.
“Que cabelo é que queres vender?”
“O meu.”
A Yazira mexeu-me no cabelo imediatamente, deixando-me logo intimidada.
“Eu compro o teu cabelo” declarou, como se estivesse a afirmar que era terça-feira. “Quanto queres pelo teu cabelo?”
Eu sei lá quanto é que eu quero pelo meu cabelo! Eu nunca vendi cabelo.
“Quanto é que tu dás?” perguntou a Susana, que é muito mais despachada e dada a negócios.
A Yazira voltou a verificar o produto que ia comprar (leia-se, o meu cabelo, ainda agarrado à minha cabeça) “Pelo teu cabelo… 30€.”
Trinta euros? Mas o cabelo da Sara valia mil!
Mas já tínhamos perguntado em tanto lado, já estávamos mesmo a desistir. Também era só por dizer que não ia para o lixo, não era? Eu e a Susana concordámos, vendíamo-lo por 30€.

Seguimos a Yazira para dentro do “cabeleireiro”. As aspas referem-se ao facto de que não me pareceu haver qualquer fonte de água e só havia um espelho e uma cadeira, onde estava sentado um homem preto musculado com uma camisa branca com manga cava e um terço de ouro ao pescoço.
“Senta aqui que eu vou cortar o teu cabelo” diz ele, para sempre baptizado de Beto, indicando-me a cadeira onde ele tinha estado sentado há uns segundos.
Onde é que eu me fui meter? Mas já não podia fugir.
Sentei-me e a Susana ficou à porta, nas minhas costas, sendo que eu, felizmente, a podia ver através do espelho.
Incrivelmente ele tinha uma bata preta, como nos cabeleireiros, que pôs à minha volta.
“Eu só quero cortar o cabelo para ela comprar, o corte de cabelo eu depois vou fazer noutro lado” informei assim que o Beto pegou na tesoura que mais parecia uma tesoura de cortar as unhas do que uma tesoura para cortar cabelo.
Sem mais conversas o Beto pegou numa madeixa no topo da minha cabeça e encostou a tesoura.
“Não!” gritei. “Eu não quero sair daqui já careca!”
O Beto puxou a tesoura um bocadinho mais para cima. Ok, assim eu já achava aceitável.
“Mas isso é pouco, não dá para eu usar” reclamou a Yazira, aproximando-se.
O Beto voltou a baixar a tesoura.
“Não, isso é muito. Eu não quero ficar careca.”
“Não, isso é pouco.”
O Beto fartou-se da discussão e cortou. Zash. Verdade seja dita, não sei se cortou por onde eu me sentia confortável ou por onde ela queria. Simplesmente cortou.
Já tinha começado.
Pegou noutra madeixa, mais a baixo. A Yazira esticou a madeixa já cortada ao lado, para servir de medida e zash, outra tesourada. Juntos repetiram o gesto uma, outra e outra vez. Um bocadinho por todo o lado da cabeça. Oh não, eu ia sair dali tipo palhaço! Não podia olhar.
Olhei para a Susana pelo espelho e percebi que aquele momento também era simbólico para ela. Comecei a deixar cair umas lágrimas.
Depois de terem cortado as madeixas de cima, o Beto decidiu cortar a parte de baixo, mais comprida por causa do escadeado, toda de uma vez. Zash.
Eu tinha o cabelo curto.
E não me ficava assim tão mal, nem tinha sido assim tão difícil.

O Beto entregou o rabo-de-cavalo completo à Yazira e passou à parte artística.
“Não, está bem assim!” disse eu.
Ele fingiu não me ouvir. Cortou mais um bocadinho aqui, aparou ali.
Atrás de mim já se tinham reunido mais umas amigas da Yazira e ela experimentava o meu cabelo, agora na cabeça dela, agora na cabeça de uma amiga, e utilizavam o meu espelho para verem os resultados.
“Eu vou fazer o corte de cabelo a outro lado” tentei explicar mais uma vez ao Beto, que se divertia a acertar o meu cabelo com um pente.
Pente 4, pente 3, pente 2, pente 3, pente 2, pente 1, pente 3, pente 2, pente 1.
A Yazira emprestou o meu cabelo a uma amiga para que o fosse pesar à loja de venda de cabelo mais próxima. “São 60 g” ouvi-a dizer, quando voltou.
“Está bem assim!” tentei novamente.
O Beto pegou numa navalha, incrivelmente a lamina era nova, estava ainda dentro da embalagem, mas eu quase saltei da cadeira.
“Não! Eu estou a tomar umas injecções que não posso ter cortes ou não se consegue estancar a hemorragia!” Eu e a Susana devíamos estar com um ar tão assustado que ele acedeu ao nosso pedido.
Olhei-me ao espelho.
O corte nem estava mau, parecia a Rihanna.
“Está óptimo assim” disse, numa tentativa de sair dali.
“Rihanna!” respondeu o Beto.
“Sim, isso! Rihanna!” estava feliz, pelo menos ele percebia o que eu estava a gostar e sabia do que eu estava a falar e não me ia deixar careca.
“Estou só a acabar.”
Pegou, novamente, na micro tesoura e tentou aparar as pontas. Zash, zash, zash. Ok Sofia, está com bom aspecto… Zash, zash. A Susana também aprovava através do espelho. Zash, zash. Estava quase a acabar.
Zash.
A pontinha que fazia com que o penteado fosse perfeito tinha-se ido à vida. E agora? Não dava para colar! E não ia crescer!

Ao menos já estava terminado.
O Beto limpou os cabelos de cima de mim e levantei-me.
Ficámos os quatro em pé, parados, a olhar uns para os outros. E agora? Faltava o pagamento.
A Susana entrou no cabeleireiro e aproximou-se de mim “Agora falta o pagamento.”
“Ah, sabes…” A Yazira aproximou-se de mim com o meu cabelo na mão, a falar baixinho. “O teu cabelo é pouquinho… E está estragado… Eu não o posso usar.”
“Agora ela já o cortou!” respondeu a Susana.
“São só 60 gramas…”
“Fazemos-to por 20€, ok?” resolveu a minha irmã.
Em silêncio a Yazira foi buscar a carteira (e largou o meu cabelo, desorganizado, em cima de uma mesa). Aproximou-se bem mais do que o necessário de nós e passou-me a nota de 20€ enrolada, como se eu, realmente, lhe estivesse a vender droga.
Com a nota ainda enrolada na mão eu e a Susana começámos a andar em marcha-a-trás para a porta. Quando estávamos mesmo na ombreira da porta…
“E o corte de cabelo?” perguntou o Beto.
“Eram 30€, ela pagou 20. Os outros 10 ficam para o corte de cabelo” respondeu prontamente a Susana.
E ala que se faz tarde.
Saímos dali as duas em passo de corrida, antes que alguém viesse atrás de nós.

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