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Romilda

Ontem foi o dia de experimentar outra medicina complementar: fomos ao consultório da Romilda.

Muita gente já ouviu falar na Romilda, a médium brasileira apareceu já em vários programas da televisão nacional (tipo manhãs da Júlia ou tardes da Teresa ou o que raie é) e em várias revistas cor de rosa, e nos seus poderes. A Romilda diz fazer um diagnóstico estilo raio-x de todo o tipo de doenças, através da visualização da aura e energias emitidas por diferentes partes do nosso corpo. Para os interessados a Romilda dá consultas em Almada e no Funchal.

De qualquer das formas a Romilda tem sido uma pequena guerra que tenho travado com a minha mãe – a mãe achava que eu devia ir, que não tinha nada a perder, e eu não queria ir a mais um… especialista para ouvir que estou doente, que é grave, que o tratamento é lento e me mata aos bocadinhos.
A mãe tinha consulta marcada para segunda-feira, não obstante da minha recusa, e, quando fiquei a dormir à tarde em casa da minha avó, a mãe aproveitou para ir à consulta com a avó e ver o que a Romilda lhes via.

A avó ia muito descrente, mais para fazer a vontade à minha mãe do que para ser vista pela Romilda, que a minha avó dizia ser uma charlatona. Esperaram 3 horas pela consulta, mas vieram as duas convencidas de que, realmente, a médium via qualquer coisa, pois, sem dizerem nada, diagnosticou problemas em ambas que já eram suspeitados. Para além da consulta às duas, a minha mãe mostrou à Romilda a minha fotografia e disse-lhe o diagnóstico que me tinha sido dado pelos médicos. A Romilda pediu para me ver assim que possível e passou à minha mãe um “passe” para que eu não tivesse de esperar nem pagar a consulta. No fim de contas a minha mãe só pagou a consulta para 1 pessoa – para charlatona estava a perder muito dinheiro…

Depois de ouvir tudo isto e a minha tia a confirmar que lhe apareciam muitos pacientes que tinham sido correctamente diagnosticados pela Romilda antes da medicina convencional, acedi ao pedido da minha mãe em ir ver a Romilda.
Tentámos ir ao consultório dela logo no dia seguinte, depois de um almoço óptimo à beira-mar, mas a Romilda estava adoentada e não estava a dar consultas. Pelos vistos tinha atendido pacientes até depois das 22h e tinha ficado estoirada, não aguentando outro dia idêntico logo depois.

Acabámos por lá voltar ontem à tarde. Telefonámos antes para confirmar que a Romilda estava bem e que estava a dar consultas, e a secretaria/recepcionista disse-nos que sim é que poderíamos ir ao consultório. Ao chegarmos lá a história mudou um bocadinho de figura, em parte por má vontade da dita recepcionista, dizia que estavam muitos pacientes, que os tratamentos estavam a ser remarcados para o dia seguinte, que a Romilda não nos poderia ver. Farta da brincadeira, até porque ir de Vila Franca a Almada não é “já ali”, a minha mãe insistiu que queria falar com a Romilda e esperámos.
Quando conseguiu a minha mãe interpelou logo a filha da Romilda, responsável pela ordem das consultas e com maior à vontade para falar destes casos à mãe. A moça pediu logo para me marcarem, mas teve de voltar a insistir com a recepcionista para o fazer e, mesmo assim, tudo o que a senhora fez foi dizer-nos que já nos chamavam.
Cerca de 45 minutos depois de termos chegado, com um passe a dizer para não esperarmos, a minha mãe estava a irritar-se com a recepcionista. Levantou-se e foi-me puxar ao lugar “estás doente e não podes estar aqui a espera” explicou-me, empurrando-me para dentro da sala de espera no corredor do consultório. Falou com a assistente e disse-lhe que eu tinha estado a vomitar e que estar ali à espera me estava a deixar mal disposta; o que não era propriamente mentira, eu tinha vomitado de manhã (umas 4 horas antes) e estava a ficar mal disposta mentalmente, como qualquer pessoa ficaria na nossa situação.
Este truque da minha mãe facilitou-nos as coisas – já só tínhamos 3 pessoas à nossa frente! E, descobrimos depois, a Romilda dá consultas de 10 minutos no máximo!
Para que a Susana pudesse ser vista também pela Romilda, a mãe decidiu ficar lá fora e deixar-nos às duas para irmos à consulta.
Quando éramos as seguintes deu-me vontade de ir à casa de banho; nada de demorado, mas e se nós chamassem nesse momento? Esperei. Disse à Susana. A Susana disse que eu estava a ser parva, devia era ir à casa de banho. Eu esperei. E depois desisti e fui. Pois a Susana bate-me logo à porta – é a nossa vez! Pois, mas dá-me 2 segundos, não posso sair de calças na mão! Mas nem dois segundos esperaram, a senhora depois de nós saltou logo para dentro do consultório. Já viram a minha sorte?
O que me valeu é que a senhora não demorou nem 5 minutos na consulta e nós ainda conseguimos entrar antes da Romilda fazer uma pausa para comer.

“Nossa, que aura linda! Dez metros de aura!” disse assim que eu me aproximei dela. Gosto.
Pediu-nos o papel da consulta e eu entreguei-lhe o tal “passe” rabiscado por ela com o meu diagnóstico.
“Está muito melhor!” Comentou a olhar fixamente para o meu peito. “Quando eu a vi pela primeira vez estava muito pior. Eu pensei, meu deus, pobre moça. Mas está assim tão mau, não.”
Eu expliquei, a medo, que ela não me tinha visto, mas a Romilda corrigiu logo que tinha visto a fotografia que a minha mãe lhe tinha mostrado. Ora, a fotografia que a minha mãe lhe tinha mostrado tinha 3 anos – estava eu melhor do que há 3 anos, ou melhor do que na segunda-feira? Acho que nunca vou saber.
Depois falou no meu fígado, que estava a sofrer, e eu não me admiro nada. Por um lado a quimioterapia dá cabo de todo o sistema digestivo (bem, de tudo no corpo), por outro eu tinha andado enjoada em jejum e comecei a dormir para o lado esquerdo, ao contrário do meu normal.
Depois olhou para a minha irmã. Não vou entrar em detalhes, mas tudo bateu certo com coisas que já suspeitávamos e que ela já está a fazer exames para confirmar.
Coincidência?

Saímos da consulta nem 10 minutos depois de nós termos sentado, com duas ou três prescrições de produtos naturais – para mim, mais umas vitaminas para a imunidade, para ver se me livro desta constipação, e uns comprimidos para ajudar o fígado.
A Susana foi à sala de tratamento para lhe colocarem uns emplastros, e eu segui-a, por termos percebido que também me iam por uns. Mas a voluntária despachou-me logo a dizer que não.

Enquanto enchiam a Susana de pensos, apareceu um outro voluntário que ficou fixamente a olhar para mim. Um homem careca, com óculos rectangulares e um olhar escuro e tão intenso que eu me senti intimidada.
“Isto há coisas…” Começou a dizer, para o ar, quando finalmente tirou o peso do olhar de cima de mim. “Isto há coisas, repetiu…”
Tinha bata de voluntário, portanto não era nenhum maluco que ali tinha aparecido por acaso, e estava mais gente na sala, pelo que tentei acalmar-me e esperar, em silêncio, que a Susana estivesse pronta e que ele não olhasse mais para mim.
“Às vezes o pensamento…” Continuou, numa voz lenta, calma, tão pausada que eu já mal me lembrava da palavra anterior quando ele terminava a nova. “Anda e anda e anda… E nós andamos às voltas…”
Estava a falar comigo, os olhos cravados em mim de tal forma que, mesmo desviando o olhar, eu sentia o dele. Senti-me obrigada a responder.
“Perdidos…?”
“Isso. Não te sentes assim? Tantas coisas e não sabes o que vai resultar…”
“Provavelmente nunca hei de saber.”
“Tantas opções. E a cabeça continua a rodar, a rodar…” Estava sentado numa cadeira, a cabeça encostada à parede atrás dele, como se estivesse muito cansado. “Já paraste para pensar? Precisas de descansar… Sabes estar parada a pensar?”
“Nem por isso, não sei estar quieta.” Eu tentava desviar o olhar, não lhe responder, não entrar naquela conversa meio sem sentido.
“É difícil. Mas se parares… Ah, vais descobrir o que te faz bem.”
“Erg… Ok. Susana, já estás?” Tentei fugir novamente.
Felizmente a Susana estava despachada, agradecemos e tentámos sair, mas a mãe, que tinha voltado pouco antes, estava a começar a chorar e os dois voluntários viram e quiseram que ela entrasse para falarem. Como nos disseram para irmos andando nós aproveitámos, indo para a fila da ervanária para comprar os produtos recomendados.
Enquanto estávamos à espera a Susana comentou que também ela tinha percebido que me iam colocar um daqueles emplastros na coluna, e que o mais provável era a voluntária se ter esquecido do meu papel.
Voltei então à sala de tratamento para insistir, quase parecia que eu acreditava que só ia ficar bem se levasse uma lembrança para casa. O voluntário intimidante de antes ainda estava na sala com a voluntária que me tinha dito que não era para eu levar nada e, quando a senhora me voltou a dizer que não, o homem chamou-me e disse que ele ia meter.
Acabou por me colocar quatro emplastros, dois na coluna, um sobre o mediastino e outro sobre o fígado. Depois colocou a mão sobre a minha cabeça enquanto entoava uma prece qualquer. Senti necessidade de fechar os olhos enquanto ele o fazia, embora isso não alterasse nada – outra daquelas coisas que não sei explicar.
Quando acabou parecia ainda mais cansado do que antes, a voz estava ainda mais baixa e lenta. Disse que tinha feito tudo e que eu podia ir para casa. Mais tarde a minha mãe explicou-me que ele estava a fazer Reiki.

No final de contas gastámos dinheiro apenas na ervanária e saímos de lá com a sensação de que tínhamos ido realmente ao médico e que devíamos vigiar o que a Romilda nos tinha dito e tomar os medicamentos naturais como tomaríamos os químicos receitados por um médico. Volto lá daqui a 15 dias, mais ou menos, para um tratamento detox.

Entretanto sinto-me melhor dos enjoos e, se não fosse a constipação, eu diria que estava óptima!

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